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terça-feira, 16 de junho de 2009

Vou abrir a caixa de Pandora - Ensaio sobre a letra L

De todas as letras do abecedário, esta é a que me provoca calafrios, a que me faz ter pesadelos com “ÉLES” gigantes a correr atrás de mim, a que me faz tremer só de pensar em dizê-la, mesmo que disfarçada entre outras companheiras. Eu explico. Não digo os éles, o mesmo é dizer que digo éwes. Não sempre, mas frequentemente, graças a algum esforço pessoal. E se vos disser que descobri esta minha pequena deficiência aos 15 anos, sendo que toda a minha família já o sabia e tendo em conta que já tenho outros tantos anos em cima, apercebem-se da gravidade da situação? Ou não? Muito bem. Eu explico outra vez.
Começo por um exemplo básico. Uma das minhas canções de infância e que fazia parte das brincadeiras. “Que winda fawua que wá wá vem, É uma fawua que vem de Bewém”. Isto vezes e vezes sem conta, eu, na minha inocência e alegria típicas da idade, sem reparar no porquê daqueles sorrisos estranhos (a verdade é que sempre fui uma miúda simpática e querida, e talvez por isso, se rissem daquela forma). Mas ali, o problema ainda estava disfarçado entre o coro de vozes.
Mais perto do momento da descoberta, em casa, para mais um almoço de família. “Ah, wuwas recheadas!! As minhas prediwectas. Wogo, quando formos a Wisboa ver as wuzes de Natawe, podemos ir à Suíça comer um daquewes bowos de chocowate?” Novamente, sorrisos estranhos.
Dramatizemos um pouco mais. Depois de apanhada nas teias do abecedário, descubro que um colega de turma sofre de semelhante maleita. Transcrevo um diálogo.
- “Owá”
- “Owá!”
- “Já fawaste com a stora Wuísa por causa do teste de Ingwês? Vais fazer segunda chamada?”
- “Sim, fawei. Ewa pediu-me para escrever um texto sobre Wondres.”
- “Boa. Wogo vais ao wuau da Wiwiana e do Fiwipe?”
- “Tás mawuca? Amanhã tenho teste.”

Os anos passaram e, verdade seja dita, habituei-me. Sem dramas, mas com muitas piadinhas pelo meio. Pudera. Os meus três últimos locais de trabalho tinham nomes com éwes, alguns fáceis de contornar, outros nem por isso. Olhando à volta, até acho que isto de não dizer os éwes dá um certo charme. As pessoas acham fofinho. E até já se generalizou na praça pública (aqui está uma daquelas lixadas de pronunciar). Sílvia Alberto, Fernando Seara, o meu gestor de conta… são alguns exemplos de companheiros de armas nesta luta diária do abecedário malvado.
Ah, querem saber como descobri? Depois de alguns anos a ser sempre a voluntária para ler os textos nas aulas, uma das minhas professoras chama-me e diz-me: “Temos de ter uma conversa…”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Calçada relaxada

O aniversário da noiva foi o pretexto para mais um jantar com a Malta do Bairro. Destaco a Malta do Bairro com caixa alta (maiúsculas) porque os seus membros são grandes. E estão cá dentro (do meu coração, claro). E sendo um jantar da Malta do Bairro, que gosta de se divertir, ir a sítios giros e conhecer restaurantes novos e diferentes, fomos, claro está, ao chinês de sempre, que nos acolhe desde os 16 anos. Não é por nada, só porque gostamos de manter bem viva a tradição. E a malta é pobre...
Invariavelmente, ocorre nos jantares da Malta do Bairro, uma viagem ao nosso passado. E porquê, pergunta-me o Garcia, o noivo. Porque a Malta do Bairro tem um passado comum que cresce à medida que o nosso presente se cruza e, consequentemente, faz do nosso futuro, um projecto de grupo.
Das várias lembranças, a da praxe é, para além das inúmeras estórias da Ritinha que preenchem quase sempre todos os jantares, mais as aventuras quase homossexuais do Mitras e do Carita, a minha com a célebre deixa: "Não consigo parar de rir!!!", que representa a primeira incursão no mundo das drogas leves. Podia contar aqui toda a história por detrás desta frase, mas deixo para alguém da Malta do Bairro, que tenha a coragem de a publicar aqui.

Aguardo.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Por falar em fotografias

Deu-me para rever os álbuns de fotografias destes 28 anos. Nostalgia, influência de amigos, qualquer coisa. Escusado será dizer que, apesar de ter como única companhia O Cão, foi a risada desenfreada lá em casa.
Passei por todas as fases. Em criança, andava sempre aprumada, com roupa confeccionada à medida e pela mãe, com a certeza de que mais ninguém tinha uma igual à minha. Vestidos de golas redondas, conjunto de saia e casaco, camisas bordadas. Um mimo!
Depois, a fase estranha da passagem do básico para a preparatória, quando dei em imitar as manas mais velhas. Isto quer dizer que usava laca no cabelo, a franja em poupa, chumaços na roupa e abusava da bijouteria.
A influência das amizades ditou os anos seguintes. Seguiu-se a fase punk, com cabelo muito, muito, muito curtinho e picos de gel, calças rasgadas, correntes, preto, muito preto.
A seguir, a onda surfo-beta, com calça pelo tornozelo, Keds, lenço ao pescoço, e, aos fins-de-semana na Ericeira, os típicos Redley, as sweats Billabong e Quicksilver.
O secundário foi uma cena mais radical. Porque queria ser rebelde mas andar cheiinha de marcas. Foi a fase cool e das marcas Uniform, Soviet, Chevignon, All Star, Levi's, que arrasavam os subsídios de férias e Natal lá de casa.
Por esta altura, devem estar a pensar que eu sofria de uma grave crise de identidade. Talvez.
De volta às fotos. Olhem para os tesourinhos que têm lá em casa. São tesouros, meus caros. Porque tirar uma foto implicava todo um ritual que roçava a solenidade. Hoje não. Tiram-se fotos ao desbarato, repetem-se poses, apagam-se quando não se gosta. No meu tempo, o que se tirava era o que ficava. E é por isso que, nos dias de hoje, gostamos mais do que vemos, Porque apagamos o que não gostamos e guardamos o que nos interessa.

Ide e diverti-vos!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ensinamentos

Sempre que passo a ferro, lembro-me dos sábios conselhos da minha querida mãe.
- Um dia, quando passares a tua própria roupa, quero ver se compras estes tecidos de merda!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Para a Lili...

Amiga,
Companheira das brincadeiras,
Ombro onde encostei a minha cabeça.
Secaste as minhas lágrimas,
Ri e chorei, fiz o arco-íris.
Amo a tua boa disposição,
A tua meninice,
As tuas sardas na pele branca,
Os teus cabelos ruivos sobre os ombros,
A tua maquilhagem exageradamente brilhante
E que espalha purpurinas por todo o lado.
És como uma irmã mais nova que nunca tive,
És incansável.
Tenho saudades das tuas festinhas na cabeça
E de seres 10 cm mais alta que eu.
És um exemplo para as miúdas da tua idade.
Não quero que sofras por um qualquer,
Tão pouco que te dês ao que não é o Special One.
Um dia, vais ser a ruiva mais fotografada do mundo.

Para ti, dedico esta música.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Velha infância

Gosto de ler o Expresso ou qualquer outro objecto de leitura ao domingo de manhã, até passar da hora de almoço, sentada na cadeira com o sol a bater de chapa na cara. Não fosse o vento e este teria sido O momento do meu fim-de-semana pascal. Fiz uma pausa na leitura e debrucei-me no muro a contemplar (sim, a contemplar) o quintal hortícola do vizinho do lado. Por entre aquelas hortaliças já um bocado amareladas, houve uma coisa que me chamou a atenção. Brilhozinho nos olhos... AZEDAS!!!! Voltei 18 anos no tempo, àquelas tardes de verão e aos fins-de-semana de sol passados no Maria Lamas, o parque. Tardes em que andava com a minha bicicleta amarela, muito diferente das bicicletas de menina com cestinho à frente que as minhas amigas tinham. Não. Eu gostava era de andar com os rapazes, porque eram mais divertidos. Destas companhias resultaram muitos joelhos esfolados, cotovelos em sangue das manobras de skate, biqueira dos ténis desgastada de jogar à bola. Era uma espécie de Maria Rapaz que queria fazer tudo o que os rapazes faziam. De tal forma que ainda hoje tenho a marca nos joelhos de um salto mortal que tentei imitar. Correu mal. Era suposto suportar a queda com os pés mas aqui a Espalha esqueceu-se desse pormenor e caiu de joelhos na gravilha. Lá ia eu, a conter as lágrimas até chegar a casa, mostrava à minha mãe e era um choradeira seguida, desde o sermão "O que é que andaste a fazer?" até ao ardor da água oxigenada. Esta aventura marcou-me a pele.
Outras tardes incluíam apanhar azedas no terreno do lar das antigas meninas de Odivelas. Não que fossem mais saborosas que as outras, talvez lhes faltasse a urina dos cães. Mas davam mais luta. Tinhamos de entrar para dentro de um pequeno varandim em pedra, saltar para o chão, a uma distância ainda considerável, apanhar o máximo de azedas que as nossas mãos e bolsos podiam carregar, correr o mais depressa possível para as velhotas não darem o alarme e voltar a subir ao varandim, com a ajuda dos amigos. Havia sempre alguém que ficava, literalmente, pendurado, à mercê das velhotas, enquanto os outros se deliciavam com as azedas, à sombra da árvore. Belos tempos, hein?
Tudo isto passou pela minha cabeça em segundos. E deu-me uma vontade tremenda de comer azedas. Do vizinho, claro. Desta vez, não tive de saltar nenhum muro nem entrar num varandim. Foi muito mais fácil. Menos luta, portanto. Ainda assim, as azedas ceifadas ao vizinho continuam a ser as mais saborosas de todas.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Bodas de Ouro

Os Estrunfes, ou Smurfs, se preferirem, celebram 50 anos. Eram os desenhos animados que eu mais gostava quando era miúda e cheguei a fazer colecção dos bonecos e dos cromos. Ainda hoje, são dos bonecos mais giros, principalmente, as Estrunfinas!!!
Aqui fica um episódio para recordar!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Éfe-érre-á

Belos tempos aqueles em que a minha vida se resumia a estudar, naquela fase em que não levamos falta se nos baldarmos e nos contentamos com um 12, o equivalente a um 16 no secundário. Hoje, regressei à minha faculdade, porque descobri que tinha o papel para levantar o diploma. E ser licenciada sem emoldurar o diploma no escritório, não é a mesma coisa. Volvidos 5 anos, bora lá levantar aquela relíquia que me custou 100 euros na altura. Apesar de ter passado o último ano nas novas instalações, tudo aquilo me pareceu um admirável mundo novo. E eu parecia uma caloira. Os putos (sim, muitos deles têm menos 9 anos que eu) olhavam-me como uma perfeita estranha, que sou, caída ali de páraquedas. Muitas mudanças: aquilo agora parece-se mesmo com uma faculdade a cheirar a novo, ainda que já tenham passado 6 anos. Mas sem mística, sem o romantismo do Palácio de Burnay, na Junqueira, sem o cheiro das árvores que às sextas-feiras de manhã se misturava com o cheiro a grego, sem aqueles corredores frios de pedra, sem o pátio, sem as escadarias, sem o Chico, o cão racista com olhos de humano, sem a roupa estendida dos porteiros, sem a cúpula que visitei uma única vez. Fria, impessoal. Estes putos nunca vão ter o mesmo espírito que o palácio nos incutia, só de lá entrarmos.
O mesmo funcionário da secretaria, com o mesmo penteado, o mesmo anel de ouro no dedo mindinho, indica-me onde posso levantar o diploma, não sem antes soltar um "Eh pá, este diploma já cheira a mofo." Confesso que me senti feliz com o diploma na mão. Não sei explicar bem porquê. Não cheirava a mofo. Saio do ISCSP debaixo do olhar daqueles putos que para mim, nunca serão verdadeiros iscspianos, por mais anos que lá andem.