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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Por falar em fotografias

Deu-me para rever os álbuns de fotografias destes 28 anos. Nostalgia, influência de amigos, qualquer coisa. Escusado será dizer que, apesar de ter como única companhia O Cão, foi a risada desenfreada lá em casa.
Passei por todas as fases. Em criança, andava sempre aprumada, com roupa confeccionada à medida e pela mãe, com a certeza de que mais ninguém tinha uma igual à minha. Vestidos de golas redondas, conjunto de saia e casaco, camisas bordadas. Um mimo!
Depois, a fase estranha da passagem do básico para a preparatória, quando dei em imitar as manas mais velhas. Isto quer dizer que usava laca no cabelo, a franja em poupa, chumaços na roupa e abusava da bijouteria.
A influência das amizades ditou os anos seguintes. Seguiu-se a fase punk, com cabelo muito, muito, muito curtinho e picos de gel, calças rasgadas, correntes, preto, muito preto.
A seguir, a onda surfo-beta, com calça pelo tornozelo, Keds, lenço ao pescoço, e, aos fins-de-semana na Ericeira, os típicos Redley, as sweats Billabong e Quicksilver.
O secundário foi uma cena mais radical. Porque queria ser rebelde mas andar cheiinha de marcas. Foi a fase cool e das marcas Uniform, Soviet, Chevignon, All Star, Levi's, que arrasavam os subsídios de férias e Natal lá de casa.
Por esta altura, devem estar a pensar que eu sofria de uma grave crise de identidade. Talvez.
De volta às fotos. Olhem para os tesourinhos que têm lá em casa. São tesouros, meus caros. Porque tirar uma foto implicava todo um ritual que roçava a solenidade. Hoje não. Tiram-se fotos ao desbarato, repetem-se poses, apagam-se quando não se gosta. No meu tempo, o que se tirava era o que ficava. E é por isso que, nos dias de hoje, gostamos mais do que vemos, Porque apagamos o que não gostamos e guardamos o que nos interessa.

Ide e diverti-vos!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Tesourinho nada deprimente - Regresso aos 80's

Faço parte da colheita de 80, aquela que ainda não chegou aos 30 mas que já sofre alguns dos sintomas, bons e maus. Fica para um próximo post.
Mais nova de três, bebia as músicas e os ensinamentos das irmãs mais velhas como qualquer miúda que gosta de aprender. Foi assim que aos 5 anos, já dialogava em inglês e cantava várias músicas na mesma língua. Tinhamos um leitor/gravador de cassetes tipo tijolo, que colocávamos no quarto no volume máximo. E assim passávamos as tardes, a ouvir, cantar e dançar. E eu, como mais novinha, imitava as mais velhas. Por esta altura, devem estar a pensar: "e também cantavam a canção das três irmanzinhas?" Sim, cantávamos.
Isto tudo para falar da música e dos grupos que se ouviam nos anos 80. Lá em casa, ouvia-se muito Duran Duran, Eurythmics, Dire Straits, Bruce Springsteen, Depeche Mode, U2, Spandau Ballet, Wham, UB40, Boy George/Culture Club, Madonna, Erasure, Fine Young Cannibals, Billy Idol, Elton John, Simple Minds, Pink Floyd, The Cure,The Police,The Smiths, David Bowie, entre outros (o meu obrigada à minha mana mais velha pela ajuda na elaboração desta lista). Sim, na altura eu ouvia muita tralha. Muita mesma. Mas a idade traz consigo a capacidade de filtrar e de absorver coisas bem melhores. É outra das vantagens da caminhada para os 30...
Lembro-me, como se fosse hoje, do Top +, que dava na altura. Era, para as manas, um programinha familiar. E eu, como mais nova, ficava extasiada por fazer parte dele. Isto marcou-me, é o que vos digo. Ainda hoje me recordo do medo que sentia sempre que passava o hit do momento. Wild Boys, dos Duran Duran. Para uma miúda de 6/7 anos, era um verdadeiro filme de terror.
Hoje, considero um dos melhores vídeos de sempre da década.

E continuo a sentir um arrepiozinho...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Carta em envelope roxo, tal como a fita que segura a chave do teu caixão

Foi um fim-de-semana cinzento, chato, monótono, melancólico, nostálgico. Damien Rice, "q", para condizer. O concerto dos Spoon foi um lusco-fusco de algum ânimo, depois, tudo na mesma.
Deitada no meu (novo) sofá, enrolada na manta, pensava em ti, avô, e nas saudades que tenho tuas. Lembro-me que não gostava quando a mãe dizia: "Este fim-de-semana vamos ver o avô." Tinha medo daquela casa. E continuo a ter, de uma outra forma, por sentir que falta ali a tua alma. Na altura, e por mais que a mãe insistisse, não querias água canalizada. "Para quê? Eu tomo banho ali no quintal, com água fria para ficar sempre rijo." Sempre o foste. O meu avô era o típico homem que gostava de beber a sua pinga, com moderação, de cantar o fado (e que bem ele cantava), de andar sempre bem arranjado e penteado, e de ter a esposa a cuidar da casa. Depois que ela se foi, desleixou-se. Com ele e com a casa. Do que eu mais gostava naquela casa era da barbearia. O avô Laranjo era o único barbeiro da aldeia. Ao sábado de manhã, logo às 8h, já tinha clientela. Adorava vê-lo a manejar a navalha (sem o sangue de Sweeney Todd...), conversar sobre a filha da ti Jaquina que tinha ido a Badajoz, fazer aquilo que toda a gente sabia e condenava. Uma pouca vergonha. Ou do João da Conceição, um malandro de tão preguiçoso que era, não trabalhava e só queria era copos e putas. Isto tudo, claro, ao som dos fados da Amália. Quando os clientes saíam, eu saltava para a cadeira de barbeiro e rodava, rodava, rodava... "Cuidado, gaiata, qualquer dia dás-me cabo das pernas, a mim ou a alguém que aqui passe." Era uma cadeira daquelas típicas de barbeiro, como poucos ainda têm, com o apoio dos pés em aço. Mortífero para quem ali passasse no preciso momento em que eu a girava. Gaiata, era assim que ele me tratava. Era tão bom ouvi-lo.
A mãe obrigava-me a ir com o avô ao café e às tascas, fazer-lhe companhia, passear com ele. Eu não gostava. Ele bebia um copo traçado (só mais tarde soube o que era aquilo) e conversa aqui e ali, já estava a cantar o fado. Cantava tão bem!! Eu escondia-me, para ver se ninguém reparava em mim... Só agora percebo o quanto eu ficava fascinada com o meu avô. Na altura, não sabia que poderia ficar sem ele. Mas fiquei. De um momento para o outro. Uma queda estúpida acamou-o, definhando-lhe o corpo numa cama de hospital. Ficou irreconhecível.
Aquela casa sem ele não faz sentido. Nem o banco do jardim. Nem a cadeira de barbeiro que, entretanto e sem eu saber, a minha mãe vendeu.

Tenho saudades...

sexta-feira, 27 de abril de 2007

L'Enfant Terrible!

Não sei se vos acontece o mesmo, mas nos meus almoços, lanches e jantares de família, o tema principal de conversa acaba sempre por ser o mesmo: a nossa infância. Então quando está a família toda, mãe, filhas, netos, maridos e namorados, cruzam-se episódios e comparam-se as histórias. Estórias, portanto. A mãe é quem, quase sempre, dá o mote. "Aquela", referindo-se à mais velha, era a líder, e esta (referindo-se à do meio) fazia tudo o que ela dizia e andava sempre atrás dela. Depois veio a outra (eu) e faziam dela uma boneca. Acordavam-na, faziam dela a filha quando brincavam às casinhas". A mais velha acrescenta mais alguns pormenores. Claro que passamos a maior parte do tempo a rir, e isto, para os meus sobrinhos, é ouro sobre azul, ouvir falar da mãe e das tias quando eram pequeninas. "A do meio era a mais calminha. Assim que se levantava, abria a porta da cozinha e perguntava: Vó, há xôpa? A Lena já não brincava tanto e então, arrumava os brinquedos todos, nas prateleiras, direitinhos e não deixava a mais nova (eu) mexer. Nem a deixava brincar com elas, dizia que ela era uma pirralha e que não sabia brincar. Bem, dava-lhe (a mim) a 'veneta', ia ao quarto e atirava os brinquedos todos ao chão, pisava-os. Depois a mais velha batia-lhe, ela vinha chorar para o pé de mim e dizia que as mais velhas não a deixavam brincar. Depois começou na fase de arrancar os cabelos quando ficava irritada (continuamos a falar de mim), e um dia ouviu-me, escapou-se-me, a dizer 'puta' e começou nisso. Quando se chateava, arrancava os cabelos e gritava para mim a chamar-me puta." Devia ter uns 3/4 anos. Grande lição para os adultos: nunca dizer asneiras ao pé de crianças na fase do papagaio, em que repetem tudo o que ouvem.
Claro que estas coisas depois têm as suas repercussões anos mais tarde. Eu e a mana mais velha somos como cão e gato, apesar de termos o mesmo feitio. O dela muito, mas muito pior do que o meu. A do meio continua a ser a mais meiguinha, apesar de ter os seus 'vaipes'. Fazia sempre o que lhe pedia, dáva-me tudo, e eu, claro, de vez em quando, tratava-a mal. Agora já não, mas ela continua a ser meiguinha, trata-me como a mana mais nova. E isso, sabe bem.
Eu, opinião geral da audiência familiar, continuo a ser a enfant terrible.


Há coisas que nunca mudam!