O sol começava a aquecer através das vidraças, ao ponto de incomodar o corpo e a vista. Era um típico dia de final de Primavera, já com o Verão a espreitar, ainda tímido. Os jardins estavam floridos, a relva bem verdinha, as abelhas esvoaçavam e os passarinhos cantavam.
O dia de trabalho estava também a começar, da mesma maneira de quase sempre: e-mails, agenda do dia e café.
Estava, portanto, a dar início à jornada de trabalho...
É então que a porta de vidro se abre, aliviando um pouco o incómodo do sol na vista. A figura feminina que acabava de entrar escondeu por completo o resto dos raios de sol, tal era a sombra... O chilrear dos passarinhos deu lugar a uma voz estridente com pronúncia do norte que só não partiu o meu copo de água porque era de plástico. Os jardins floridos e a relva verde deram lugar a um lamaçal tremendo...
"Os condomínios, estamos todos muito aborrecidos... Vocês não fazem nada. Se o jardineiro não faz, têm de fazer, agora assim é que não"... As palavras entravam dolorosamente na minha cabeça, não pelo conteúdo em si mas pelo tom agudo com que eram proferidas...
"As sementes foram semeadas e ainda não cresceram, não é? Demora tempo, sei, mas há duas semanas e nada. E além disso, o jardineiro disse que ia colocar o casquilho e nada ainda. Como é?"
O alarme disparou na minha cabeça. "Casquilho...? Falta colocar iluminação no jardim...?"
"Não é esse, é o casquilho castanho para pôr em cima da relva"...
Foi um belo dia de final de Primavera...
Mostrar mensagens com a etiqueta Encontros imediatos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Encontros imediatos. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 6 de setembro de 2011
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Intranet e Internet - Ensaio
A vida é feita de opções. E eu optei por fazer uma queixa electrónica em vez de ir a um qualquer posto da PSP ou GNR fazê-la presencialmente. Fiz mal... Não porque o site para o efeito (qualquer coisa como http://queixaselectronicas.mai.gov.pt) seja complicado ou pouco claro. É chato, confesso, ter de escrever pormenorizadamente a dita queixa, que poderá ser de violência doméstica (será que aquela palmadinha na outra noite se enquadra?), burla, burla no trabalho, e etc. Feita a queixa, e na falta de um certo aparelhómetro para introduzir o CU e do próprio CU, restou-me optar pela identificação presencial num qualquer posto da GNR ou PSP. E aqui fiz bem, ainda que ao início me parecesse uma má escolha. Dirigi-me ao posto da GNR da Malveira, um edifício de arquitectura moderna, de linhas rectas e ar clean. Lá dentro, e debaixo do olhar atento dos dois guardas, digo esta frase, que lhes caiu no goto como um golo de aguardente caseira: "Bom dia (e um rasgado sorriso), apresentei uma queixa electrónica e venho fazer a identificação presencial obrigatória." Reacção: olhos esbugalhados, boca semi-aberta, coçar a cabeça... "Ó menina... queixa electrónica...?", "Sim, pela internet, através do site do MAI e depois dizem-nos que podemos fazer a identificação presencial em qualquer posto." (Silêncio, com os olhos bem abertos) "Sabe, nós aqui não sabemos nada disso, nem internet temos, sabe? Talvez venhamos a ter intranet daqui a uns tempos, mas não temos nada disso."
Seguiram-se uma série de telefonemas para o comando regional, depois para o comando distrital e até para o comando nacional, isto, claro, depois de uma conversa com o responsável do posto. A mesma justificação: "Sabe, nós aqui nem temos internet, talvez intranet daqui a uns tempos..."
Telefonemas, questões, coçadelas de cabeça e minutos depois, alguém se lembra que recebeu um fax com qualquer coisa disso das queixas electrónicas. E lá foi buscar. Voilá!!!!! Fez-se luz. O dito fax explicava todo o procedimento a tomar perante uma utente com uma queixa electrónica. Afixaram-no para conhecimento geral. E abriram a caixa de Pandora... O guarda mais novo, com ar de pastor e faces ruborizadas, deu a dica ao guarda mais velho, daqueles com ar de velha guarda, pequenino, velhaco e que não perdoa uma multa.
"Já viu aquilo das queixas electrónicas, através da Internet..."
"Hein?? Eu na quero cá saber de nada disso, agora queixas pela internet..."
Seguiram-se uma série de telefonemas para o comando regional, depois para o comando distrital e até para o comando nacional, isto, claro, depois de uma conversa com o responsável do posto. A mesma justificação: "Sabe, nós aqui nem temos internet, talvez intranet daqui a uns tempos..."
Telefonemas, questões, coçadelas de cabeça e minutos depois, alguém se lembra que recebeu um fax com qualquer coisa disso das queixas electrónicas. E lá foi buscar. Voilá!!!!! Fez-se luz. O dito fax explicava todo o procedimento a tomar perante uma utente com uma queixa electrónica. Afixaram-no para conhecimento geral. E abriram a caixa de Pandora... O guarda mais novo, com ar de pastor e faces ruborizadas, deu a dica ao guarda mais velho, daqueles com ar de velha guarda, pequenino, velhaco e que não perdoa uma multa.
"Já viu aquilo das queixas electrónicas, através da Internet..."
"Hein?? Eu na quero cá saber de nada disso, agora queixas pela internet..."
terça-feira, 27 de maio de 2008
Da Vida
Sabemos que estamos melhor agora do que há 10 anos, quando encontramos uma amiga que está com pior cara do que nós. E sabemos que somos alvo de inveja quando nos apercebemos que ela sabe disso e que nos come com os olhos.
Sabemos que nos tornámos mulheres quando alguém que nos conhece desde criança, diz, sem qualquer segunda intenção, que somos uma mulher bonita.
Sabemos que somos responsáveis pelo que ensinamos àquela criança quando, ao nosso gesto, ela nos lança os braços para vir ao nosso colo.
Sabemos que estamos fartos de pessoas quando damos por nós a desabafar com o cão, com uma cerveja numa mão e uns cajús na outra.
Sabemos que nos tornámos mulheres quando alguém que nos conhece desde criança, diz, sem qualquer segunda intenção, que somos uma mulher bonita.
Sabemos que somos responsáveis pelo que ensinamos àquela criança quando, ao nosso gesto, ela nos lança os braços para vir ao nosso colo.
Sabemos que estamos fartos de pessoas quando damos por nós a desabafar com o cão, com uma cerveja numa mão e uns cajús na outra.
sábado, 27 de janeiro de 2007
Tu?
Foi numa destas manhãs geladas, com as mãos cobertas pelas luvas que deveriam ter mais pêlo, com a gola do casaco para cima a deixar apenas metade da cara de fora, que o vi, ao fim de quase 6 anos desde a última vez que estivemos com amigos comuns. Quando andamos de metro, temos mais tempo para reparar no que nos rodeia, nas pessoas que entram e saem, que se sentam ao nosso lado. Ainda o comboio não tinha parado na estação e eu já o tinha visto. Casaco castanho de fazenda com a gola para cima, também a tapar-lhe metade da cara. Calças de ganga gastas. Estava mais forte, gordo não. É daqueles homens que duvido que alguma vez ganhe barriga. O cabelo estava igual. Entrou. E das nossas meias caras descobertas, olhámo-nos e reconhecemo-nos imediatamente. Tu? Sim. Depois do sorriso de espanto e de contentamento (mais do que o esperado), seguiu-se a conversa trivial do costume. O que fazes? Estás a morar em Lisboa? Disse-me que se tinha casado (lembro-me de algumas conversas e de ele me dizer que essas coisas de alianças não era com ele) e que tinha a Clara, quase com dois anos. Bem, quem te viu e quem te vê. Depois de uns segundos de silêncio (ao mesmo tempo que olhava e falava com ele, lembrava-me dos anos passados, da escola, das saídas à noite com a malta toda, das amizades daquele tempo), ele despediu-se, ia ter uma reunião com um cliente no Saldanha. Fica bem e até um dia destes. Nada de troca de telefones, nem cafés combinados. Esta história tinha mesmo chegado ao fim, sem que alguma vez tivesse começado.