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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Retratos de Barcelona IV



Retratos de Barcelona III



Retratos de Barcelona II



Retratos de Barcelona I



Desta vez...

... fomos a Barcelona não como dois turistas ávidos por descobrir a cidade, os seus monumentos, as marcas de Gaudí, mas sim como duas pessoas que regressam a uma cidade que os deixou impressionados, bem impressionados.
Regressámos a Barcelona quatro anos volvidos. E comprovámos porque dizem que quem lá vai uma vez, volta sempre uma segunda.
Desta vez, e como tinhamos muito tempo livre para relaxar e desfrutar da cidade como bem quisessemos, sem olhar para o roteiro, sem ficarmos em filas de espera para entrar nos pontos de interesse turístico, como La Pedrera, a Sagrada Família, o Palau Guell, o castelo de Montjuic, sem pressas, portanto, detivemo-nos nas pessoas. Na movida dos catalães. No melting pot que é aquela cidade. Paquistaneses, turcos, indianos, marroquinos, que se misturam com os catalães e com os turistas oriundos de várias origens: Canadá, States, França, Alemanha, China, Japão, Roménia, Itália, Portugal, Espanha... Sim, Espanha. Porque a Catalunha não é Espanha. Porque platja é bem diferente de playa, con é muito diferente de amb, creme catalan não é a mesma coisa que creme català e la ciudad é diferente de la ciutat. É esta diferença que faz com que a selecção espanhola não seja motivo de orgulho e euforia para os catalães. Só os turistas é que ligavam ao Euro e faziam o favor de encher os cafés. Nós incluídos.

II
As Ramblas e suas as ruelas e travessas parecem-se com um Martim Moniz a uma escala 20 ou 30 vezes superior. Naquelas ruelas e travessas abandona-se a confusão dos turistas e entra-se na essência da cidade, nos bairros, na vida das pessoas de lá. Não sei bem o que são. Catalães? Não, a maioria é imigrante. Nestes bairros da baixa, Raval e Ciutat Vella, há lojas, cafés, cabeleireiros, supermercados, restaurantes, pastelarias de e para a miscelânia de gente que ali se fixou. Apesar de ficarem longe das artérias principais, algumas destas ruelas dão acesso a alguns monumentos e, por isso, passeiam-se por lá turistas. Bem-vindos, aliás. Digo mais. Nestes bairros não se sente a segregação que se sente em Lisboa, em relação aos bairros da baixa. Aqueles fazem parte de Barcelona, da mesma forma que Barcelona não seria o que é sem aqueles.
Depois, há o L'Eixample, a Catalunya, a Plaza d'Espanya, o Passeig de Grácia, as zonas nobres, os Restelos lá do sítio, mas sem as prostitutas e as embaixadas.

III
Assim de repente, apetece-me dizer que Barcelona combina com "desenrasca".
São desenrascados nos transportes. Os bus estão articulados com o metro (8 linhas), que por sua vez está articulado com o comboio. Mesmo durante a noite, os táxis trabalham pouco. Tome-se este exemplo. À chegada ao aeroporto de Barcelona, podemos apanhar o comboio para o centro da cidade ou o autocarro que parte a cada 10 minutos. No sentido inverso, a mesma coisa. Onde é que em Lisboa se chega ao aeroporto ou ao centro sem ser de táxi ou de carro?
As lojas estão abertas até à meia-noite. Há um café, um restaurante, um supermercado, a cada 3 passos. Há um mercado aberto de segunda a sábado, até às 22h, 23h.
Há vida em Barcelona. Há vontade em aproveitar cada minuto do dia. Há, mesmo, um mundo inteiro em Barcelona.

Há, também, um custo de vida muito elevado, que faz com que umas mini-férias de quatro dias se transformem no equivalente a sete dias no Algarve.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Do Alentejo, com amor

De cada vez que vou à terra da mãe (Barbacena, Elvas, Alto Alentejo), é como se fizesse uma viagem no tempo. Recordações, objectos antigos, livros, fotografias, paisagens. De todas as vezes, a minha lenga lenga é sempre a mesma.
"Mãe, dá-me o rádio dos anos 40, rectangular, castanho, que ainda funciona."
"Mãe, dá-me o ferro em ferro, que funciona a carvão, pesado como tudo."
"Mãe, dá-me os pratos em latão com frutos para pendurar na minha cozinha."
"E dá-me também a cafeteira em latão."
A todos estes pedidos um redondo NÃO, que já foi mais convincente. Talvez daqui a uns anos ceda.
Abro os armários à procura de coisas, que já conheço de cor. Vasculho as loiças. Três canecas castanhas para cerveja calham-me na rifa.
Encontro uma caixa de madeira com fotos da juventude do meu avô. Alto, magro, cabelo sempre penteado, bem arranjado, um belo partido, ainda que com poucas posses. Fotos com a data escrita à mão e a memória do local.
Um pequeno livro do Ministério do Exército, "Rumo à Índia", Natal de 1956, composto e impresso pela Papelaria Fernandes, ocupa-me o resto da tarde. É um guia de missão para os soldados, com conselhos para a defesa da Bandeira, da terra e da unidade. Missão: "garantir, a todo o custo, a manutenção da nossa soberania em Goa, Damão e Dio." Isto promete...
Frases como "podemos dividir o seu clima em três estações: uma quente, uma menos quente e outra ainda menos quente", e "Em Damão, não chove tanto como em Goa, e em Dio, chove ainda menos", fazem-me ficar com aquela cara de parva.
"A embriaguez é o caminho directo para a desordem e a razão segura da quebra de prestígio. (...) Mais perigosos ainda são os produtos das destilatórias locais, conhecidos por fenim e sura. Se os beberdes, mesmo que em pequena quantidade, depressa ficareis perturbados e, se abusardes deles, arruinareis a vossa saúde."
Os conselhos continuam... "Não penseis em namorar uma moira (maometana); nada conseguireis e, se insistirdes, provocareis grande agravo e uma desordem de que saires mal, com prejuízo para tudo e para todos."

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Agora sim, a maravilhosa viagem a Pipa, passadas quase duas semanas e o bronze, esse, está quase a ir...

Demorou mas cá está. Afinal, isto de se escrever sobre viagens, principalmente, as que se fazem a nível pessoal, é mais difícil do que parece. "Vou ter imensa coisa para escrever, para contar", pensei. E é verdade! Mas também é que há coisas difíceis de explicar por palavras. Pipa é uma vila simples e tudo o que vi baseou-se nessa simplicidade. Talvez por isso, seja complicado escrever sobre a viagem, que começou pela simplicidade e rodeou-se sempre daquele espírito "boa onda" típico, agora sei, dos brasileiros do Nordeste. E contagiante... Aquelas pessoas não sabem o que é stress, não sabem o que é andar depressa para não chegar atrasado. É tudo na boa. A verdade é que passei uma semana "sempre na boa", no "relax", no "tou nem aí"...
Nem sei por onde começar... talvez pelas frases brejeiras e simpaticamente graxistas do guia, Tiago, "cês são um grupo show dji bóla", "eta, gentje arretada". E, claro, a piada sem piada, "Natal é a única cidade do mundo onde se pode desejar Feliz Natal todo o ano".
Podia também começar pelo percurso Natal-Pipa, já de noite (19h), em estradas estreitas, sem qualquer iluminação a não ser a das televisões das casas, algumas ainda em tijolo, sempre de porta aberta, mas todas, sem excepção, com uma TV, um sofá e uma parabólica gigante no telhado. À beira da estrada, grupos de homens jogavam às cartas e bebiam Skoll, iluminados por uma puxada ilegal de um poste de electricidade.
Ou então, podia começar pela osga que me recebeu na recepção do hotel, queitinha no candeeiro laranja. Alguém comentou: "estamos no meio da natureza, calangos (lagartos) não vão faltar". E não errou. Não se passou um dia sem ver uma espécie rastejante, na mesma proporção que via os golfinhos à minha beira, no mar, à distância de dois, três metros. Confesso que este foi, para mim, o ex-libris desta viagem. Ter por ali os golfinhos a nadar... Sei lá, nem sei explicar a sensação. Eu, que já nadei com eles em alto mar, em Cuba, sentia uma alegria infantil inexplicável a olhar para aquilo. E todos os dias, eles andavam apenas naquela praia. Mais do que o hotel, o chalé em madeira, os jardins, aquilo sim, era um verdadeiro luxo.
Conheci pessoas simpáticas, humildes, sem vícios de dar graxa ao turista tuga. Pobres de bens materiais mas ricos de espírito. Como o Xico da Rede, que calcorreava as praias debaixo daquele braseiro, com várias camas de rede e colchas, sempre bem disposto que, com sotaque sertanejo, apregoava: "Tá dormindo no chão? Xico da Rede é a solução". Inchava e sorria de orelha a orelha (deixava ver que mascava erva o dia inteiro) quando falava de um jornalista holandês que o conheceu e que fez duas páginas sobre ele. Mostrava-as plastificadas, como um tesourinho nada deprimente.
Afirmo sem dúvidas que esta viagem foi a minha terapia, mas não a cura. Infelizmente. E agora percebo o que me diziam sobre algumas zonas do Brasil (realço o "algumas"): há ali qualquer coisa que te cativa imediatamente, que te vicia e que te deixa profundamente infeliz por partires.






Parece exagerado? Não é.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Agora sim - Roma: o texto que ninguém vai ler porque é ENORME!

Destino: Roma, 4 dias. Podia terminar já aqui este post e deitar por terra um mito que persiste entre as mentes femininas e algumas masculinas: os italianos são lindos de morrer. Tomem nota: os italianos são feios, porcos, falam alto e vestem-se mal. Pelo menos, os romanos. As italianas, algumas são bonitas, sim, bem arranjadas, mas não são um fenómeno. Além disso, têm o nariz empinado. Primeira impressão: a amostra da espécie masculina italiana no avião não augurava nada de bom.

I
Viajar em trabalho pode ser um grande pesadelo quando se tem de tomar conta de 21 adolescentes. Ou então não... É difícil estar numa posição que exige respeito, criar aquela distância que nos permite ter alguma autoridade. É mesmo difícil. Além disso, não gosto dessa postura. Prefiro entrar na onda deles. E deu resultado. qualquer coisinha "Ó Andrea, agora vamos onde? E amanhã vamos fotografar onde? E onde é que vamos comer?". Alguns insistem em tratar-me por "você". Os 12 anos de diferença falam mais alto!

II
Roma é barulhenta. Vozes em volume exagerado, carros, sirenes dos carabinieri (polícia municipal), indianos que nos impingem miniaturas do Coliseu, Piazza S. Pietro, bustos do Papa. Do novo, que de João Paulo II pouca coisa se vê.
A responsabilidade de estar em trabalho e o cansaço não me deixam ver o muito que há para ver. E descobrir. A sensação de caminhar pelas ruas de Roma é tal e qual isto: depois de "resgatar" um grupinho que tinha ficado para trás, aliciado por um indiano que vendia cintos D&G, chego a uma praça e do lado direito estava a Fontana di Trevi, uma verdadeira nascente. Perfeita, alva, limpa. Uma surpresa, portanto. Aproveito a pausa para entrar numa sapataria e dou uso à carteira. Afinal, estou em Roma, sei lá quando cá volto.
Mais uma caminhada por entre as ruas estreitas até ao Panteão. Mais do que as contrafacções Prada, Gucci e Louis Vuitton, que prometo comprar no último dia, com calma para negociar, desvio o olhar para os posters de cenas de filmes: La Dolce Vita, Ben Hur, James Bond, Bucha e Estica, Um Eléctrico Chamado Desejo. Há um em particular que me chama a atenção e que penso em comprar para lhe oferecer.

III
O bom (ou mau) de Roma é que convida insistentemente para pararmos num café para degustar, sem pressas e sem pensar nas calorias, um gelado ou uma sanduíche deliciosa com tomate e mozzarella.
Dos ex-libris, vi apenas dois com atenção. A missa de domingo do Papa não conta, para quem não é dada a essas coisas. Vê-se ao longe a cabecita branca. Do que diz, não percebo niente.

Na mesma Piazza di S. Pietro, o destaque vai para a Basílica. A energia positiva que concentra assusta-me, não por sentir qualquer proximidade com o que representa, mas pela perfeição imaculada. As cúpulas são minuciosamente pintadas, milimetricamente graciosas. A acústica dos passos... Reparo num grupo de turistas japoneses que faz fila para passar a mão no pé da estátua de um Papa, e benzem-se de seguida. Confesso que não tentei saber o porquê daquele gesto. E continuo sem saber.
Sigo para o Coliseu de táxi. Está um calor primaveril intenso e a caminhada a pé ainda é custosa. No entanto, o meu conselho é que escolham o táxi apenas em caso de extrema necessidade. Se há coisa que os italianos não são é bom condutores. Atravessar nas passadeiras também não é aconselhável!

Chegada ao Coliseu, mais uma fila. Pensei em desistir e aproveitar para passear pela Via Del Corso, comprar uma daquelas Prada que vendem nas ruas, às escondidas da polícia. Má sorte de um que não conseguiu fugir a tempo e foi de braço preso com a mercadoria.
A entrada custa 11 euros. Aqui, a sensação é outra. Dentro das ruínas do Coliseu, sente-se uma carga negativa que se respira logo a partir do primeiro segundo em que nos demoramos a olhar para o que já foi o grande Coliseu romano. A arena está aberta e deixa ver as catacumbas. Muros de pedra, labirintos, jaulas. Não optei pela visita guiada e por isso, a tentativa de reconstruir na minha cabeça cada pedra foi bem difícil.
O cansaço acumulado dos dias anteriores leva-me a apanhar outro táxi. Paragem seguinte: gelataria na Piazza Veneza. Como, regaladamente, uma concha com 3 sabores. O último gelado que como em Roma não é dos melhores, nem tão pouco dos mais baratos.

IV
Na viagem até ao aeroporto Leonardo Da Vinci, é altura dos "Adorámos", "vou ter saudades tuas" e das tradicionais lágrimas de despedida entre os miúdos. Claro, as perguntas: "quando é que as fotos estão prontas? E o book?"
Hora de aterrar. Acho que o sentimento comum a todos os que viajam, a lazer ou em trabalho, é a tranquilidade de chegar a Portugal e ver as luzinhas da cidade de Lisboa. No meu caso, acrescentem-se as saudades da minha querida almofada.